Domingo, Maio 21, 2006
TEXTO: 253.
"PROFESSORES SOB PRESSÃO"
( OUSO DAR MINHAS RESPOSTAS )
Hoje, domingo, após meus afazeres domésticos, pego
a "REVISTA", do jornal "O Globo", e não pude ficar
indiferente à capa:
Uma professora sentada, desiludida, cabeça apoiada
na mão, tendo, atrás de si, alunos brincando no quadro,
enquanto ela pensa:
"O que devo fazer para ensinar os alunos a respeitar
o colégio?" (Precisa estudar Português essa professora!
Quem ensina... ensina algo a alguém.).
Ainda na capa, na parte de baixo, em letras grandes:
"Professores sob pressão
Pesquisa nacional mostra que os educadores
não são respeitados nas escolas públicas
nem nas particulares".
Imediatamente, fui ler. Mas, antes de ler,
vi que o assunto era desenvolvido a partir de
perguntas, feitas como se a mesma professora
da capa estivesse pensando nelas. Não resisti.
Passei a responder, com base em minha experiência
(só depois li toda a reportagem).
Dei respostas ilustradas com fatos que aconteceram
comigo (são tantos!).
Respostas com as quais não pretendo ser a dona
da verdade.
São apenas as minhas respostas, baseadas no que
sempre norteou meu trabalho:
o respeito que tenho pelos alunos e pelas outras pessoas,
o respeito que sempre exigi dos alunos e de todos,
o respeito pela missão que eu tinha diante de cada aluno,
a consciência que eu sempre tive da necessidade de me
aperfeiçoar, de tentar errar menos, a cada dia.
Eis as perguntas e minhas respostas:
1) "Como os pais podem ajudar os professores a
ensinar aos alunos a ter respeito dentro da sala
de aula?" (Aqui, a professora usou corretamente
o verbo ensinar!!!!).
A meu ver, a pergunta de um professor deveria ser
justamente o contrário: Como os professores podem
ajudar para que haja respeito na sala de aula, na
escola e na Vida? E, a meu ver, a resposta é simples:
PELO EXEMPLO. O professor deve ser o exemplo.
Apesar de tudo. Ou mude de profissão.
Uma vez, eu estava explicando um assunto numa
turma e comecei a sentir aquele cheiro horrível de
"barbantinho cheiroso" dentro da sala; algum aluno
acendera o tal barbantinho. Parei a explicação, falei
com os alunos que estavam próximos às janelas para
que as fechassem, enquanto eu fechava a porta dizendo
que não poderíamos perder nada daquele "perfume"!
E continuei a explicação. Como uma atriz em cena.
Um bom professor precisa ser melhor que um bom ator,
porque o professor não repete as mesmas falas sempre,
porque quem está na platéia não está ali para se divertir,
porque o professor tem que avaliar o quanto de sua
"representação" foi assimilado pelos alunos, porque
o professor não é aplaudido por melhor que tenha sido
seu trabalho.
Após pouco tempo, o cheiro estava insuportável e um
aluno perguntou se eu não iria perguntar quem tinha
acendido o tal barbante. Abri a porta. Pedi que abrissem
as janelas. Eu disse à turma que não tinha nenhum interesse
em saber quem acendera o barbante. Mostrei a eles o quanto
nossas atitudes interferem em nossa própria vida e na vida
dos outros, que imaginassem se, ali, alguém fosse alérgico
àquele cheiro (eu fiquei atenta à respiração de cada um
enquanto janelas e portas estavam fechadas, corri o risco).
Conversamos. E, a seguir, voltei às explicações. Estavam
todos atentos, sem exceção. Jamais soube quem acendeu
o barbante.
A propósito, nunca usei tirar aluno de sala como castigo;
se esquecessem material, eu tinha folhas e canetas para
emprestar (alguns colegas não deixavam entrar alunos
sem o material completo e estranhavam minha atitude),
mas eu dizia aos alunos que os únicos materiais
indispensáveis em nossas aulas eram nossas cabeças
(a minha e as deles).
2) "O que devo fazer para enfrentar a hostilidade
dessas feras? Como tornar a matéria interessante
para eles e conseguir atenção?"
Como enfrentar as feras? Vejam como enfrentei uma
turma de "infratores" (nome brando para ladrões e
outros tipos - os professores não conheciam os delitos
de cada aluno). Julho de 1973. Eu fui contratada para
substituir um professor que tinha sido demitido (os
alunos eram "internos", jamais seriam expulsos e eram
proibidos de sair). Turmas de oitava série, rapazes fortes,
aula de Redação. Duas aulas seguidas semanalmente por
turma. Tudo ia bem até que entrei numa turma difícil.
Primeira aula: Mal consegui fazer a chamada, todos
andavam de suas carteiras para seus armários. Eu,
em observação ainda, tentei ser educada, escrevi
um tema de redação no quadro, sem a introdução
que eu tinha preparado. Alguns alunos não fizeram.
Recolhi de quem fez. O sinal bateu. Saí frustrada.
As outras turmas iam bem.
Segunda aula naquela turma, mesma coisa.
Na terceira aula, resolvi mudar. Que me demitissem!
Cheguei com passos firmes, olhei sério para cada um
(nenhum sentado!), joguei com muita força meu
material sobre a mesa e, com voz alta e forte (benditas
aulas de canto!), ordenei que sentassem. Perplexos
com minha mudança, pouco a pouco sentaram-se.
Ainda olhando para cada um, ordenei que levantasse
o braço quem não estava gostando de mim. Todos
levantaram. Com a mesma voz eu disse que já
esperava aquilo. Ordenei, então, que me perguntassem
se eu estava gostando deles. Nova perplexidade.
Foi minha vez de dizer o quanto eu estava detestando
aquela atitude deles e de perguntar por que não gostavam
de mim se ainda não me conheciam.
Foi quando começaram a dizer que estavam revoltados
com a demissão do outro professor... e começamos
a conversar. Conversa é minha área.
As feras estavam dominadas. Ficamos amigos.
E eu não fui demitida.
Alguns alunos dessa mesma turma tiveram suas redações
premiadas por uma Loja Maçônica. Um deles, chorando,
disse-me que jamais sonhou em ter algum texto seu premiado
(ele tirou o segundo lugar).
A segunda parte da pergunta: Como tornar a matéria
interessante e conseguir a atenção dos alunos?
Em primeiro lugar, a matéria tem que ser interessante
para o professor; se ele gostar, de fato, daquilo que
ensina já tem meio caminho andado. Em segundo
lugar, ele tem que conhecer bem o que ensina,
saber fazer correlações, mostrar que é importante
saber aquilo. O professor deve saber tirar proveito de tudo
que acontece relacionado a seu assunto. Ser um ótimo
ator, mesmo sem receber aplausos. Mas, sobretudo,
acreditar que é mesmo importante ensinar o que
sabe. Não complicar, tirar dúvidas.
Compreender que alguns alunos não vão gostar
do que ele ensina, permitir que eles não gostem,
mas incentivar o estudo mesmo assim, como um
enriquecimento da bagagem de conhecimento.
3) "Será que uma aula usando apenas quadro negro
pode interessar alunos na era da Internet?" (Colega,
"quadro-negro" se escreve com hífen!!!!).
Para mim, qualquer material é válido como auxiliar.
O material imprescindível são as CABEÇAS (do
professor e dos alunos). Entenda-se: Um bom diálogo,
com base no respeito mútuo. Não há ensino se o aluno
não aprende. Por isso sou contra professores que têm
prazer em reprovar alunos, dão só notas baixas. Se os
alunos não aprendem é porque não houve um ensino
adequado.
Quando os alunos são avaliados, os professores
também o são.
Um bom professor não perde oportunidades. Um
lápis caindo no chão, um personagem de novela,
um fato que ocorra. Tudo isso pode vir a ser uma
ótima aula.
(Nesse mesmo quadro, pág. 19, uma aluna diz que a
aula é "tediosa". Dificilmente uma aluna, nessa faixa
etária mostrada, usaria essa palavra. Mas se ela está
conversando com suas amigas, e a professora pensando,
onde está a aula? Essa aula da foto não é "tediosa",
simplesmente não existe!).
É preciso preparar os assuntos da aula para que se evitem
essas lacunas ociosas.
4) "Será que castigo resolve a desatenção na sala
de aula? Como reagir a isto?"
A vida já é muito difícil! Não é necessário
acrescentar a ela mais castigos.
Sou favorável ao incentivo, ao elogio para quem
melhora, mesmo que melhore apenas um pouco.
E sou contra ridicularizar o aluno que não tem
bom resultado em avaliações, é preciso dar
oportunidade para que melhore, o objetivo
principal é aprender.
Não adianta ter notas ou conceitos altos sem ter
aprendido. Nem todos têm a mesma capacidade.
As avaliações precisam ter questões fáceis, médias
e difíceis; não ser de um tipo apenas; ter questões
envolvendo a criatividade do aluno. E estar sempre
avaliando.
5) "Até o celular compete com o professor em sala
de aula... Assim fica difícil... Não há quem agüente..."
Deixará de competir se forem criadas regras. Não se
pode negar a existência e a utilidade do celular. É
preciso que alunos e professores compreendam que,
na aula, o celular deve ser usado só para um assunto
urgente. Alunos e professores devem pedir a quem tem
o número do celular para que, no horário de aulas, só ligue
em situações de emergência.
6) "Agora eles estão trocando figurinhas... era o que
faltava..."
Se os alunos estão trocando figurinhas é porque se criou
outro espaço ocioso na aula (a professora está sentada...
Jamais consegui dar aula sentada!).
Por que não aproveitar essas figurinhas e incluí-las na
aula?
Uma vez um aluno (daqueles "infratores") me disse que
para dar tiro ele não precisava estudar. Como uma atriz,
peguei a "deixa" (palavra de um ator que marca a entrada
do outro) e comecei a falar de tiros, da linha descrita pela
bala ao sair do revólver e que, se estudasse, ele iria, sim,
aprender a atirar melhor e... uma vez o aluno aceitando
conversar... eu aproveitava para ir em frente e tentar mudar
seu ponto de vista.
7) "Parem com a bagunça! Vamos ver quem sabe a lição
de hoje."
Essa é a frase típica do professor que não domina a turma,
não domina o assunto. Não tem que parar a bagunça para
começar a aula. Se a aula tivesse começado, não haveria
bagunça. Nem que seja necessário "dominar as feras" como
foi dito no início.
8) "Com tantos problemas, como é possível educar os
jovens no Brasil?"
ACREDITANDO. Acreditando que É POSSÍVEL E é!
O resto decorre dessa firme crença.
Parabéns, Liliane Lutterback Daflon, supervisora geral
do Colégio Plínio Leite, em Niterói, por suas palavras,
página 19, sobre esse assunto, nessa "REVISTA" citada
no início deste texto:
"- Eu só acredito na ação do professor. O educador
tem que assumir que essa bola é sua e começar a
tocá-la para a frente."
É exatamente o que eu penso. E foi o que eu fiz.
Toquei essa bola para a frente por muitos anos.
Quase nunca é fácil.
Mas é a única maneira, a meu ver, que funciona.
Até o próximo domingo... ou segunda-feira.
Domingo, 21 de maio de 2006.
Cochichado pela Bisbilhoteira on 23:07 | *
Sexta-feira, Maio 05, 2006
TEXTO: 251.
ESTE BLOG COMPLETA 3 ANOS
( 5 de MAIO ! )
(Endereço da figura do bolo, com 3 velinhas,
oferecido, nos comentários, por JADY.
Obrigada, Amiga!).
No dia 5 de maio de 2003, nasceu este blog,
preparado, com todo carinho, pela amiga LÍVIA,
de Salvador, Bahia. Obrigada, Lívia, repito sempre.
Aqui, exponho minhas idéias em meus textos.
Procuro sempre seguir o ditado popular: "A pedra
e a palavra não retornam depois de lançadas."
A palavra tem grande poder. Ela pode construir.
Ela pode destruir. Há quem a considere uma das
mais poderosas armas.
Muitos estranham meu apelido: Bisbilhoteira.
Bisbilhoto, antes de tudo, minhas próprias idéias,
meus próprios sentimentos, minhas reações diante
dos fatos.
E os textos, escritos de acordo com o que sinto, são
publicados aqui, neste cantinho tão precioso para mim.
Três anos!
Às vezes, fico em dúvida se todo esse meu palavrório
tem alguma utilidade. Gostaria que tivesse.
Talvez, um dia, eu alcance o sonho tão bem exposto
no seguinte texto:
"QUERO SER PONTE
(Pe. Luiz Serraglios)
Senhor, nasci para unir, vivo para unir,
sirvo para unir. Eis minha missão
e meu segredo.
Senhor, que maravilha a missão de ser ponte.
Quero também ser ponte.
Ser ponte para:
unir os homens entre si,
unir os desunidos,
unir os desencontrados,
unir os corações.
Senhor, na estrada da vida
de tantos homens que por mim passam,
quero ser ponte.
Que eu nunca seja muralha
que separa,
mas seja sempre uma passagem,
seja abertura total,
para que os homens possam
chegar a Ti."
Quem me dera ser uma ponte assim!
Vale sonhar...
FELIZ ANIVERSÁRIO, MEU BLOG!
Agradeço aos que aqui chegam, de passagem.
Agradeço aos que aqui param, e lêem.
Agradeço aos que aqui deixam suas palavras
gentis nos comentários.
Que me perdoem se não retribuo suas visitas
e seus comentários tão rapidamente como
gostaria.
Muitíssimo grata por todo carinho que tenho
recebido aqui nesses três anos de caminhada.
FORTE ABRAÇO,
Bisbilhoteira.
Até a próxima sexta-feira... ou sábado...
Sexta-feira, 05 de maio de 2006.
Cochichado pela Bisbilhoteira on 02:13 | *