Sábado, Outubro 15, 2005
TEXTO: 235.
POBRES PROFESSORES!
( 15 DE OUTUBRO )
Pobres professores! Professores pobres!
Houve um tempo em que os professores eram pessoas
respeitadíssimas, por alunos e pela sociedade em geral.
Estudavam muito, dominavam muitas partes do Saber.
Houve um tempo em que os professores eram notados
onde quer que fossem, pois ocupavam lugar de destaque
na sociedade, já que, para serem admitidos em seus
cargos, eram submetidos a provas de conhecimento e
provas práticas em salas de aula, provas dificílimas com
rigorosa avaliação pelos examinadores.
Conseqüentemente, ganhavam ótimos salários.
Nesse tempo, o rapaz que se casasse com uma professora
era logo apelidado de "o marido da professora", como se
ele tivesse conseguido dar "o golpe do baú".
Nesse tempo, os professores davam aulas de terno e de
gravata. As professoras todas usavam belas roupas e
estavam sempre de sapatos com salto alto. Nenhum
professor(a) entrava numa sala de aula sem estar bem
vestido(a). Alguns usavam agradáveis perfumes.
Externamente, com suas roupas e modos elegantes,
equilibravam seu grande cabedal de conhecimento,
transmitido prodigamente a seus alunos, que aprendiam,
de fato, aquilo que os professores ensinavam.
Nesse tempo, os professores eram admirados por todos,
e todos lhes devotavam grande respeito.
Houve um tempo em que, talvez, o saber dos professores
(e o fato de eles ensinarem tão bem a seus alunos)
começou a incomodar. Afinal, pessoas que estudam pensam.
Talvez não quisessem que as pessoas pensassem muito.
E, nesse tempo, começaram a empurrar os professores para
baixo, degrau a degrau.
E, nesse tempo, começaram a encher as escolas de alunos.
Mesmo que não aprendessem nada, eles passariam de ano.
O importante era ter as crianças na escola. Aprender ficou
sendo secundário, depois não foi mais importante.
No começo da queda, os professores ficaram atônitos.
Com o passar do tempo, formaram-se dois tipos de
professores. Esses dois tipos existem até hoje:
1) Aqueles que ensinam, apesar de tudo (roupas gastas,
contas para pagar, mil dificuldades), e ficam felizes com
o progresso de seus alunos.
2) Aqueles que se acomodam com a situação, deixando
os alunos em paz: uma pesquisinha em grupo, todos
com notas altas, todos aprovados. O sistema agradece.
O fato é que, agora, reconhecidamente, o ensino está
em crise. Há quem sugira colocar computadores nas
salas de aula para resolver tudo...
Esquecem que livros, computadores, filmes, museus,
bibliotecas, etc., são meras ferramentas. Um bom
professor as usará muito bem, sozinhas de nada servem.
(Coloquem tratores, pás, num terreno a ser cultivado e
deixem lá, sem ninguém para manobrar, orientar. Duvido
que a plantação útil apareça, nascerá o mato de sempre).
Ser Professor é uma profissão, tem que ter um salário.
Mas vivem dizendo que ser Professor é apenas uma nobre
missão, como se qualquer profissão não o fosse também.
E ficam os professores a mendigar por melhores salários.
Hoje, dia 15 de outubro, o jornal "O GLOBO", página 8,
publica o fim da greve dos professores das Universidades
Federais, iniciada em agosto passado. Conseguiram um
aumento de 25 % a partir de janeiro. Foi necessário que
alguns dos "grevistas" (professores universitários!)
invadissem o gabinete do Ministro da Educação, que
está na Europa.
A que ponto fazem chegar nossos professores!
E os outros? Precisarão também invadir os respectivos
gabinetes para serem ouvidos? É preciso falar mais?
Não vejo a hora em que nossos professores comecem
a subir os degraus por onde os empurraram e passem
a ocupar seu lugar de direito na sociedade, recebendo,
como antes, o respeito, a consideração e o salário que
merecem e que lhes foram arrancados.
Por enquanto, sem cumprimentos. Só lamentos.
Que tenham todos muita coragem.
E que estejam todos naquele primeiro grupo que citei.
Até dia 24 de outubro.
(Em 15/10/05).
Cochichado pela Bisbilhoteira on 17:25 | *
Domingo, Outubro 09, 2005
TEXTO: 234.
C R I A N Ç A S !
( 12 DE OUTUBRO )
Não tive filhos.
Convivi muito de perto com três crianças,
desde que nasceram: Minha irmã (13 anos
mais nova que eu) e meus dois sobrinhos
(filho e filha de minha irmã e de meu cunhado,
que é como um irmão para mim).
Acompanhei o crescimento, as primeiras palavras,
os sorrisos e os choros dessas três crianças, cada
qual a seu tempo, cada qual desabrochando
lindamente para a vida.
Hoje, somos todos adultos.
Não há mais crianças a meu lado.
Para mim, não houve colar mais precioso
do que os dois bracinhos de minhas três crianças,
envolvendo meu pescoço, jóia viva de calor e de
carinho. Ainda sinto o veludo de cada abraço.
Meus cumprimentos a todas as crianças:
Crianças que têm lares bem formados,
Crianças com lares desfeitos,
Crianças que vivem em asilos,
Crianças nos hospitais,
Crianças sem lares, nas ruas,
Crianças escravas, em trabalhos pesados,
Crianças felizes,
Crianças tristes,
Crianças indiferentes, revoltadas,
Crianças saudáveis,
Crianças doentes,
Crianças diferentes,
Crianças tímidas,
Crianças extrovertidas,
Crianças nas creches,
Crianças!...
Até sábado.
(Em 10/10/05).
Cochichado pela Bisbilhoteira on 23:04 | *
Segunda-feira, Outubro 03, 2005
TEXTO: 233.
SIM? NÃO? FLORES!
( NADA A VER COM PRIMAVERA... )
Sábado, dia 1º de outubro, começou a propaganda
gratuita (gratuita?), tentando esclarecer à população
sobre a escolha (do "SIM" ou do "NÃO") que faremos
no próximo dia 23, em relação ao comércio de armas.
Sábado, dia 1º de outubro, à noite, começou mais um
tiroteio habitual que, repito (ver texto anterior: 232),
infelizmente, não mudará em nada, seja qual for o
resultado de nossa escolha: SIM ou NÃO.
Lembrei-me, então, de um pequeno livro pelo qual
tenho muito carinho: "O Menino do Dedo Verde",
de Maurice Druon.
Enquanto os sons dos tiros, trocados ao longe,
chegavam aos meus ouvidos, lembrei-me de
Tistu, o menino, personagem central do livro,
com seu dedo verde (onde seu dedo tocava,
nasciam flores).
Para quem não conhece o livro, Tistu era filho de um
respeitado fabricante de armas de fogo de todos os
tipos e tamanhos, vendidas, principalmente, para países
em guerra. As armas eram vendidas igualmente para
os dois ou mais lados em conflito. No momento da
história, há uma guerra entre dois países e Tistu fica
horrorizado ao tomar conhecimento de tudo isso,
principalmente com o fato de seu pai tão querido
ser o fabricante das armas. Mas eram as guerras
que tornavam seu pai tão rico e respeitado, o que
proporcionava a Tistu uma vida farta e feliz.
Tistu, após obter mais informações sobre guerras
e sobre armas, ficou revoltado. Imaginou famílias
como as dele sendo destruídas, meninos como ele
sendo mortos, casas acolhedoras como a dele sendo
destruídas. Tomou providências: À noite, visitou a
próspera fábrica de seu pai e esfregou seu dedinho
em todas as armas, tanto nas que iam para um lado
da tal guerra como nas que iam para o outro lado,
os carregamentos já estavam preparados.
O resultado não podia ser outro: Os canhões dos
dois lados funcionaram, mas haviam atirado flores.
"Uma chuva de amores-perfeitos, papoulas e
miosótis..."... "gerânios, margaridas e beijos.
Um general tivera o quépi arrebatado por um
buquê de violetas." (Pág. 115 do livro citado).
Essa guerra terminou aí.
Vale a pena ler todo o livro.
Recomendo para todas as idades.
Como seria bom se aparecessem muitos meninos
como Tistu, com seus dedos verdes, e cada um
tocasse as inúmeras armas que há no mundo,
não só as de fogo!
Como seria bom se, de todos os lugares, ao invés
de tiros, sangue e lágrimas, surgissem, como no
livro de Tistu, lindas flores, de todas as cores,
tamanhos e perfumes!
Era sábado, dia 1º, à noite. O tiroteio parou.
Continuei deitada. Em minha mente, muitas
flores substituíam não só as armas de fogo,
mas as drogas, os sofrimentos, as doenças,
as maldades, as espertezas, as falcatruas,
as mentiras, as hipocrisias...
Todos presenteando e sendo presenteados,
com flores. Muitas flores!
"Afinal a guerra é uma espécie de tiririca
que se alastra pelo globo... com que espécie
de plantas poderíamos combatê-la?" (Tistu,
em "O Menino do Dedo Verde", de Maurice
Druon, Capítulo Quinze).
A meu ver, qualquer briga é um tipo de guerra.
Aceita uma flor?
. . .
Até segunda-feira.
(Em 03/10/05).
Cochichado pela Bisbilhoteira on 12:31 | *